sexta-feira, 15 de julho de 2011

Super-Herói

Sim, eles existem. Não se deixe enganar, nem pense que tudo o que você vê nos quadrinhos, ou no cinema, é apenas ficção. Os super-heróis existem sim! E mais: eles estão entre nós. Não é assim tão fácil reconhecê-los, afinal, eles não usam cuecas sobre as calças, e seus superpoderes geralmente são discretos. Sem dúvida você já cruzou com um, sem saber.



Digo isso por experiência própria. Eu conheço um super-herói de verdade!

O herói que eu conheço, por exemplo, você nem diz que é herói. Olhando assim, ele não é alto, nem é saradão... Mas ele me ensinou a lutar, quando vinha na minha direção balançando pernas e braços, olhos arregalados, imitando um robô... eu tomava posição de combate, mas quem disse que eu podia contra ele? Em um segundo estava eu gargalhando, rolando no chão, rindo do "ataque" de cócegas.

Meu herói já foi palhaço, divertindo meus amigos, distribuindo saquinhos de pipoca que magicamente saíam de sua roupa. Já foi Coronel Trautman, numa promoção relâmpago, enquanto me orientava como se eu fosse o Rambo. Meu herói não é um Jedi, mas me mostrou de qual lado da Força eu deveria ficar. O herói que eu conheço tem visão além do alcance, e eu não falo apenas de enxergar longe, mas tem a capacidade de quase saber o futuro... O herói que eu conheço fala, e faz o que fala. 

Esse herói, ao contrário dos falsos heróis, chora. Tá, tudo bem, eu o vi chorando poucas vezes... na primeira vez, ao perceber minha cara assustada, tentou até esconder. Mas um instante depois, olhou para mim, do alto de uma escada de ferro, e disse: "Homem que é homem chora." Isso foi há tanto tempo! Mas heróis têm esse poder, de fazer a gente não esquecer de jeito nenhum o que eles falam.

O herói que eu conheço me mostrou como ser firme sem ser ignorante; ser diplomático sem ser hipócrita; a ser malandro sem tirar vantagem dos outros e a ser ousado, mas não abusado.

Meu herói chegava todas as noites com um estória diferente - ok, hoje ele as repete, mas e daí? é sempre bom ouvi-las de novo... e de novo... e de novo...

Percebi que ele era um herói quando me levou, cruzando a cidade num ônibus, debaixo de um sol escaldante de uma tarde veraneira de sábado, e me levou para assistir "Batman". Sim, o primeiro Batman. Eu vi aquele homem-morcego agitando na telona, mas quando olhei para o lado, percebi que Bruce Wayne não era páreo para o cara que tava ali comigo.

Meu herói me ensinou a tabuada em tempo récorde. Meu herói corre 10km sem se cansar. Meu herói me mostrou como vencer desafios, pois ele sempre me desafiou, jamais deixou eu ganhar nada sem algum mérito, e me incentivou em todas as minhas ideias malucas. Dele veio a curiosidade sobre tudo, e a disciplina. Mostrou como uma mulher deve ser tratada, e o valor da família, e tudo isso no dia-a-dia, na prática, pois "palavras convencem, mas só o exemplo arrasta".

Esse grande homem não lê mentes, mas se comunica comigo só pelo olhar. Ele não tem super-força, mas me carregou muitas vezes. Não tem o dom da cura, mas me conforta. E num único abraço, ele afasta meus inimigos... De vez em quando se irrita, mas aquele sorrisão sempre no rosto, desmonta!

Esse super-herói nunca salvou o mundo todo... Mas há 50 anos salva o MEU mundo. E isso é mais do que o bastante para mim.




Parabéns, meu PAI, pelo meio século de uma vida bem vivida. Que Deus te abençoe.


TE AMO


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sobre guarda-chuvas e sombrinhas: Um estudo neurossociológico

Todo estudo acadêmico-científico que se preze tem que começar com uma definição formal. Pois bem! Gosto particularmente do conceito do povo amazonense a respeito do tema, para quem, não importa a ocasião, guarda-chuva é sempre uma "sombrinha". Isso mesmo: pode estar uma chuva torrencial lá fora, à noite, sem energia elétrica, que o caboclo só sai de casa com uma sombrinha. Amazonense não usa guarda-chuva. Usa sombrinha. E pode ser um baita guarda-chuva, do tamanho de uma barraca de camping para 20 pessoas - vai continuar sendo uma singela sombrinha.

Diferenças clássicas entre guarda-chuvas e sombrinhas

Isto posto, há que se justificar a origem do texto. Estava o autor saindo de casa, às 7h30 da madrugada de uma segunda-feira preguiçosa, quando começou a chover forte. Abrigado pelo veículo, não deu muita bola para a chuva, até se lembrar de que o trajeto entre o carro e a repartição onde trabalha torna-se imensamente mais comprido em dias de tempestade (valeu, Einstein!). Pensou em voltar para buscar seu guarda-chuva e já vinha fazendo um retorno "semi-proibido", quando atinou para o fato de que não possuía um guarda-chuva desde o dia 27 de novembro de 2005. Neste fatídico dia, o autor do estudo perdeu seu 61º guarda-chuva, o que motivou uma decisão definitiva no reveillon daquele mesmo ano: nunca mais teria uma sombrinha novamente.

É uma decisão logicamente simples e menos dramática do que aparenta: o estresse causado pela perda de um guarda-chuva não compensa seu valor de mercado. A conta é a seguinte: considerando que adquiri, a partir dos meus 15 anos de idade, 61 guarda-chuvas; considerando que a média de preço de um guarda-chuva comum, médio, preto e sem desenhos, já descontadas a depreciação, valorização das moedas, planos econômicos e inflação, é de aproximadamente R$ 15... Gastei, por ano, algo em torno de 85 reais! Isso significa dizer que, todos os anos, eu esquecia 85 contos em ônibus, banheiros de shopping, cinemas, salas de aula... Oitenta e cinco reais! Em guarda-chuvas!

Infográfico (clique para ampliar)

O guarda-chuva é um daqueles objetos místicos que você só percebe sua existência no caso de ausência, como, por exemplo, aquele pedaço de ovo de páscoa que você esqueceu na geladeira e que, no dia em que passa o tempo todo pensando em chegar em casa para finalmente devorá-lo, descobre que seu irmão caçula foi mais rápido.

Mais místico que isso, no entanto, é a capacidade inerente ao objeto de simplesmente desaparecer. Se você já teve um guarda-chuva, com certeza você já perdeu. A atual sombrinha que você tem hoje provavelmente será deixada largada em algum lugar nos próximos 2 ou 3 meses. Até mesmo quem não tem guarda-chuva já perdeu o de alguém! Há casos documentados de vítimas que juram ter perdido o maldito dentro de suas próprias casas, mas nunca, jamais, terem-no encontrado novamente.

Para mim, isso é algum tipo de conspiração das empresas produtoras deste estranho objeto. Uma forma de manter o mercado de sombrinhas aquecido e com demanda sempre crescente. Só pode!




Voltando ao campo mais técnico, e tomando por base os conceitos difundidos por Murphy (1952), proponho o "Teorema Básico do Guarda-Chuva". O teorema, que claramente bebe na mesma fonte (com o perdão do péssimo trocadilho), na "Teoria da Proximidade do Banheiro" (estudo clássico cujo corolário mais famoso é: "Quando você está apertado para ir ao banheiro, quanto mais próximo você estiver de um, mais irresistível será a vontade"), expõe que a probabilidade de perder um guarda-chuva cresce exponencialmente, em função da precipitação do momento, enquanto que a probabilidade de recuperá-lo decresce de maneira inversamente proporcional. Isso significa, em termos leigos, que quanto maior for o toró, mais chances você tem de esquecer a sombrinha em algum veículo ou local que torne impossível sua recuperação. Ou seja, você perdeu o dito-cujo para sempre, playboy!


O fascínio e a mágica em torno do guarda-chuva, e até mesmo uma certa obsessão pelo objeto, podem ser inclusive percebidos na arte. A Velha Surda e o Pinguim o usavam como arma. Gene Kelly tinha uma sombrinha como parceira de dança. Era meio de transporte para Mary Poppins. O mundo entrou em colapso depois que uma organização chama "Guarda-Chuva" liberou um vírus que transformou todo mundo em zumbi em Resident Evil. E, claro, foi hit de Rihanna que venceu um Grammy em 2008.

O autor do estudo continua firme em não adquirir outro guarda-chuva. Mas isso pode mudar a qualquer momento, instável e indeciso como a previsão do tempo...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

#OrgulhoNerd

Vida longa... e próspera!
 
Era o primeiro ano do Ensino Médio. Durante o intervalo, dois amigos jogam "Magic - The Gathering" no gramado entre os blocos de salas de aula, enquanto um outro rapaz só assiste, tecendo comentários engraçadinhos a respeito dos nomes e das descrições contidas nas cartas. A partida já se encaminhava para um final épico, quando três gigantes - veteranos do 3º ano; e quando eu digo "veteranos" quero dizer: "aqueles caras que não estudam e repetem as séries em progressão exponencial" - aparecem do nada, como que advindos de um buraco de minhoca maligno de Stargate.

Não eram pessoas, eram orcs. Com um projeto de sorriso entre os lábios cheios de baba verde, o que parecia ser o líder da horda bagunçou todo o plano do duelo. Os jogadores conseguiam sentir o peso do mana de cor preta que vinha dele. Um dos meninos colocou a mão no bolso, procurando um Círculo de Proteção ou coisa assim. O garoto que só comentava o jogo balançou a cabeça, negativamente. É melhor não provocar as criaturas.

- Então vocês são os idiotas do primeiro ano? - falou o Darth Vader.

"E vocês devem ser os imbecis do terceiro...", uma mente sagaz devolveu, mas o apego à vida impediu a boca de articular as palavras.

- Viemos aqui para acabar com a raça de vocês!

"A raça de vocês é que deveria ter sido extinta no dia em que o Um Anel foi lançado no abismo de fogo em Mordor", outra cabeça pensante respondeu, pá-pow, sem exteriorizar.

O garoto engraçadinho, que nem gostava tanto assim de Magic, mas estava ali entre bons amigos, pensou em ensaiar os movimentos preparatórios do hadouken. Mas lembrou que seria muito difícil executá-los com perfeição diante de uma ameaça tão iminente, em um inimigo tão próximo. Esse golpe necessitava de um mínimo de espaço. Desistiu. Pensou que não viveria tempo suficiente para saber o que raios aconteceu com Fox Mulder. Não chegaria a ser mestre de uma mesa de GURPS. Não assistiria aos demais filmes da trilogia de Matrix.

Os dementadores avançaram. Um dos meninos começou a choramingar. O outro tomou posição - afinal, aquelas aulas de ninjutsu com o tio de terceiro grau, que ele tomou por querer imitar Kenshin Himura, poderiam ser úteis... a despeito do fato de não haver espada alguma para aplicar o battoujutsu.

O piadista ainda tinha uma última carta na manga. Nunca acreditara em signos mas, como bom virginiano, fechou os olhos e mentalizou. Abriu os olhos de repente, por trás de seus óculos fundo-de-garrafa, e soltou um tímido "Rá!". Nada aconteceu. Shaka era o cavaleiro mais poderoso das Doze Casas. O Tesouro do Céu funcionava com ele, não com um moleque do Colegial. "Por favor, moço, no estômago não, que eu tenho problema de gastrite", foi o que conseguiu dizer... O chefe das criaturas das trevas veio em sua direção, e ia preparando um belo soco na face, atendendo, como um gentleman, ao seu pedido.

"Logo hoje fui esquecer meu sabre de luz", lamentou um dos garotos.

O sinal tocou. Os quinze minutos de intervalo mais longos de toda a existência do ser humano na Terra finalmente haviam acabado. O Seu Vagner, inspetor de alunos, apareceu, como um EVA salvador, vindo dos céus.

- Largue o menino! O que vocês estão fazendo aqui fora? Você aí: quer briga? Vai procurar alguém do seu tamanho! Já pra sala de aula! E vocês... recolham essas cartas, senão vou jogar tudo no lixo! Vocês não deveriam mexer com isso, é coisa do demônio. Anda, anda, anda... que eu não tenho o dia todo!


***

Isso aconteceu em 1999, na Escola Técnica Estadual Pedro Ferreira Alves, em Moji Mirim, São Paulo. E o rapaz do estômago, era eu. Numa época em que ser nerd era ser escória e pária da sociedade. Se bobear, o Darth Vader da história deve ser hoje o office-boy do Padawan que esqueceu o sabre. Os nerds não mudaram, foi o mundo que mudou. Não sei dizer se isso é um "ainda bem" ou um "ih, rapaz".

De qualquer forma, é o meu jeito de dizer: Feliz Dia do #OrgulhoNerd.